A década de ouro

Por onde começar? O que foram os anos 80, difícil não lembrar dos muitos acontecimentos nessa década de ouro e como isso reflete nas nossas vidas, passados já 40 anos. Difícil também não a comparar com as décadas seguintes.

Como contexto nasci em 1981, a época morador da praia de Botafogo, donde da minha janela se via a queima de fogos no réveillon e o grandes acontecimentos do país ainda estavam ali concentrados. A começar pelo círculo cultural, com seus efervescentes shows e acontecimentos, tudo passava por ali. Dos vizinhos de SP vieram os Titãs nos apresentar shows de umas das melhores bandas de rock daquele tempo, vieram também os vizinhos de Brasília com o Capital Inicial e o Legião Urbana, que dispensam comentários, enquanto isso ícones cariocas como Paralamas do Sucesso e o Barão Vermelho eram os responsáveis por fazer a galera sacudir por aqui. Nesse tema podemos dedicar horas sem fim e não listar os tantos sucessos que surgiram aqui, importante citar Lulu Santos, Djavan, Marina, Celso Blues Boy, Ultraje a Rigor e Blitz.

Já havia passado a década gloriosa, os Novos Baianos, nem tampouco o movimento da Tropicália de Bethânia, Caetano, Gal e Gil. Todos já seguiam as suas carreiras solo, fruto do auge dos anos 70, assim como ao redor do mundo de dissolveram o Led Zeppelin e The Doors por exemplo, fechando com louvor toda a importância e transformação que aconteceu ali.

Me lembro da primeira infância e talvez por isso percepção de que tudo era mais simples, fácil e feliz. Das padarias do meu bairro, das feiras livres, das caminhadas pela enseada de Botafogo, do colégio Imaculada Conceicao, do frenesi da rua Farani a noite a atrapalhar nosso sono dentre várias coisas que ficarão para uma segunda abordagem.

Bem, dito isso, lhes comento que de um ponto de vista político os 80 são chamados de década perdida, vindo pós o “Milagre Econômico” dos anos 70, e em 85 com fim também da ditadura o que sobrou foi o bagaço da laranja. Dívida externa inalcançável, alucinante remarcação de preços no varejo, volatilidade cambial, e os inúmeros planos monetários Cruz(credos).

A atmosfera era revolucionária e transgressiva, cabelos volumosos para chamar a atenção, assim como as roupas coloridas e toda a influência americana que víamos pela televisão: do All Star ao Michael Jackson, Madonna, Prince e Guns´n´Roses e tudo o que isso significa. Ainda faltaria uma década para nascer a MTV, então os nossos artistas se encarregavam também desse papel de difundir as tendências em terra brazilis.

Na televisão além do programa do Chacrinha, Trapalhões e do Clube do Bolinha que merecem um post a parte só para contar das chacretes, das mais divertidas trapalhadas e dos calouros mais inacreditáveis que se tem notícia também havia uma grande demanda de conteúdo, uma vez que todos nós juntávamos nos sofá para passar um tempo juntos vendo a visceral TV. Eram efeitos especiais sombrios e primitivos, o suspense das novelas, de quem matou a Odete Roitman a Top Model, onde a gatíssima Malu Mader no auge dos seus 23 aninhos nos faziam demorar mais no chuveiro.

Nesse sentido os anos 80 deixou um legado de filmes incríveis, alguns que seguem em cartaz até hoje: Scarface, Indiana Jones, Gremilins, ET, Batman, Footlose, Caca Fantasmas, Blade Runner, Duro de Matar, De Volta para o Futuro.

O que falar do futebol? O Flamengo estava na sua melhor forma. Zico nos conduziu por uma série de títulos e foi disparado o melhor momento da nossa história: Brasileiro em 80, 82 e 83. Carioca, Libertadores e Mundial. Que time foi esse meus amigos!! Mozer, Junior, Andrade, Nunes, Leandro e Adílio, esses eram um dos heróis nacionais, que embalados aos belos sambas de Beth Carvalho levavam o povo ao delírio. Somente em 1983 seria inaugurado o sambódromo por isso tenho plena certeza que se fora 2 anos antes, quando o Flamengo voltasse de Tóquio o desfile seria ali.

Mas o carnaval não nasceu com o Sambódromo e tampouco as musas da época, como usas Luiza Brunet, Bruna Lombardi, Luma de Oliveira e Claudia Raia já alegravam muitos bailes de carnaval e os desfiles que aconteciam na Presidente Vargas e avenida Rio Branco.

Em 1984 já assistíamos as corridas de fórmula 1 na televisão, e em 1988 ao trocar a Lotus pela McLaren Ayrton Senna conquistava seu primeiro título e quebrando dois recordes, um verdadeiro orgulho nacional. Nas ruas, os recém lançados Escort, GOL e Monza se encarregavam de arrancar olhares por onde passavam, com suas linhas retas e motores de 80 cavalos se consolidavam sobre os já rodados Fusca, Chevette e Corcel.

Não por acaso, e voltando a falar de música, em 1985 o Rio de Janeiro volta a ser o centro das atenções mundial com um festival que promete, e depois cumpre, ser o maior festival do rock mundial. O Rock in Rio trouxe para a américa Latina o que havia de melhor no line up mundial, artistas que pela primeira vez vieram por esses lados, o line up era incrível, e, também por isso mais de um 1.600.000 de pessoas estiveram por lá durante os inacreditáveis 10 dias de festival. Tenho um casal de amigos que guarda até hoje os ingressos do festival que reuniu desde AC/DC, Queen, Iron Maiden até Ney Matogrosso e Elba Ramalho.

Na arquitetura da cidade tanta coisa mudou desde 1980… me lembro do Tivoli Park, para citar como referência da diversão fora de casa. Não havia grandes shopping centers, não haviam chegado massivamente os vídeo cassetes e a diversão do carioca era Praia, Cinema ou Circo, Futebol e parques.

Passávamos muito tempo na rua, e isso era incrível. Aos mais novos lembro que não havia celular, os telefones fixos eram vinham com ações da Telerj e os orelhões colecionavam moedas metálicas especiais, chamadas fichas, que usávamos para ligar para casa em alguma emergência. Nossos pais tinham um código especial, sejam um assovio, um sinal, de luz, fumaça ou outro que o valha que nos podia localizar e avisar que era hora de voltar para casa. Claro que as vezes não funcionava e éramos responsáveis por isso, mas posso garantir que éramos livres e felizes.

Jamais esquecerei da minha Caloi Cross, melhor companheira de aventuras, também dos tombos mais espetaculares que um moleque pode colecionar. Dos longos passeios, mais à frente das corridas na ladeira do Parque Guinle, dos reparos feitos no meio da rua, das fugas de inúmeras situações e das caronas para as vindouras namoradas…

Quando digo que nos divertíamos nas ruas o falo com razão, nos fins de semana saia para brincar na rua pela manha e as vezes só voltava no fim as tarde para tomar banho e dormir. Conhecíamos todos nossos colegas da rua, do quarteirão e as vezes até do bairro pelo nome, nossos pais sabiam dos nossos amigos que as vezes iam em casa para tomar um copo d´água entre uma partida e outra por exemplo e assim uma rede super efetiva de conhecimento e cuidado era criada. Todo mundo se falava, o tempo era efetivo para estarmos juntos e aproveitar, acredito que havia menos maldade e mais verdade nas pessoas.

Havia conta na venda, no bar, no açougue, na farmácia, as pessoas confiavam umas nas outras e um compromisso era algo sério, que não necessitava nenhuma formalidade ou rito adicional, o famoso fio do bigode.

Hoje vejo alguns filmes que já citei e lembro de festinhas de criança onde dançávamos sem saber e sem julgar a ninguém, só reclamávamos quando alguém pedia pra juntar e tirar foto, o que era todo um ritual, foto era algo importante e máximo que cabia num filme eram 36 “poses”, talvez por isso os momentos eram mais valorizados e realmente vivíamos cada um deles.  

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