Seguindo os passos do Rei na Nação

– Oi Galerinha, meu nome é Robertson e sou o mais novo futuro craque do futebol mundial. Meu plano é jogar no grande Flamengo o próximo ano, em seguida a seleção e logo depois o mundo.

– Ah, Bobson, fica quieto, já esta tarde, deixa a gente dormir. – Resmungou seu irmão.

– Deixa seu irmão, menino, ele está gravando para o Faustão. – Retrucou a mãe.

– Ahahaha, cacildis, só se for para a olimpíadas do Faustão. – Caçoou o outro irmão.

– Shhhhhhhh, como posso ser famoso com vocês me atrapalhando assim, e olha, Mussum, me chama de Robertson, porque tem que começar com o “R”, ou o Galvão não vai gostar de falar meu nome na seleção. – Sentenciou Robertson

– Chega crianças, esta tarde, vou apagar a luz, todos dormindo porque amanhã é um dia importante pro Bob. – Finalizou a mãe.

– Robertson. – Reclamou mais uma vez.

– Shhhhhhhhh

– Meu nome é Robertson Ferreira da Silva, sou o melhor jogador da favela e amanhã terei minha chance de mostrar isso na peneira seletiva da Taca das Favelas, que ocorre todo ano. E este, meus amigos, vai ser o meu ano.

Bob é um menino comum das favelas do Rio de Janeiro. Mora com a mãe e seus 4 irmãos em um imóvel de três cômodos. Faz aulas de manhã, em uma escola pública gerida pelo governo do Estado e faz bicos de entregador, capina terrenos, ajuda em pinturas e os mais variados serviços para ajudar sua mãe com a renda da família. Todos em suas casas são responsáveis e não chegam a fazem muitas coisas erradas e de certo, nada fora da lei.

Seu sonho é ser jogador de futebol, aproveitar tudo que a fama trás junto, para o bem e para o mal, e comprar uma casa muito melhor para sua mãe e garantir que ela não tenha nunca mais que trabalhar, já que ela já trabalhou muito. 

Amanhã é o dia que muitas crianças na Favela sonham, a Seletiva para os times da Taça da Favelas, onde times recém-criados participam de um torneio. Eles jogam, não somente pela taça ou pelo prêmio, mas muitos dos jogadores profissionais hoje foram revelados neste torneio e este, talvez seja o único meio deles chegarem lá.

A seletiva começa as oito horas em ponto, os times são criados de forma aleatória, normalmente em times de oito integrantes: sete na linha e um no gol, sem reservas. Bob tinha planejado acordar às seis da manhã, para ser um dos primeiros a chegar.

Porém algo passou naquela noite, houve uma queda de luz em todo o bairro e os despertadores, normalmente radio-relógios, foram todos reiniciados, perdendo sua configuração original. Atendendo um chamado da natureza, Bob acorda e olha o relógio, que estava piscando em exatas 12:00 horas, difícil de acreditar naquilo, naquele vulto vermelho. Ele salta da cama e aos gritos acorda a todos para saber das horas. Estava atrasado, já eram sete e dez da manhã. Menos mal que no dia anterior havia preparado tudo, mas não se trocou ali ou tomou café-da-manha, apenas saiu. Precisava garantir seu lugar na fila.

Apenas escutou sua mãe gritar de dentro de casa: 

– Sorte, meu filho, mostra para eles.

Ao chegar no local da peneira, Bob se deparou já com uma grande fila, cumprimentou o técnico, que era seu amigo, as pessoas que participavam de todo o processo, que também eram seus conhecidos. E foi desejando sorte, um a um, na fila, até chegar o último e estabelecer seu lugar.

Havia contado um total de 64 concorrentes, ou seja, ele seria o 65. Um bom número para ele, afinal, se somasse seis mais cinco, chegaria a 11, que é o número da camisa dos artilheiros. Estava confiante, não podia ser só coincidência. Mas não parava de chegar gente.

Chegada a hora, todos em seus lugares, pequenos grupos na frente foram formados com as explicações e o técnico vem na direção de Bob, onde pára e pede para todos que estejam dali para trás se aproximarem. As notícias não são boas, esse ano, terão menos tempo e somente oito times terão a chance de mostrar seu futebol. Depois de muitas reclamações sobre justiça e xingamentos, o técnico concorda com eles e se limita a falar que a vida nem sempre é justa.

Quase todos foram embora, mas Bob ficou, mesmo muito triste, ele entendeu que a situação não estava ao controle de seu amigo e decidiu ficar apenas para ver como seriam os preparativos. Perguntou se podia simplesmente ajudar, queria ao menos viver aquele momento.

Com a resposta positiva do técnico, ele ficou ali, viu os times serem formados e alguns treinos serem iniciados. Pela regra, no primeiro dia seriam apenas treinamentos para os times se conhecerem e no segundo dia as partidas, todas no mesmo dia, já com os olheiros buscando seus jogadores, até se ter um único campeão. Bob, sugeriu algumas jogadas ao treinador, falou das habilidades dos que considerava seus melhores concorrentes. Viveu aquele momento como se fosse dele.

Por volta da hora do almoço, sua mãe tinha passado lá, para ver como estava tudo. Ao ver Bob na lateral do campo somente, sentiu um calafrio. Se aproximou e apenas viu a face triste de seu filho, perguntou se estava tudo bem e ele apenas acenou com a cabeça. Ela se foi.

Ao final do dia, Bob voltou para sua casa e todos ávidos em saber como tinha ido. Bob contou a eles o que aconteceu, disse que estava feliz por poder ter participado. Silencio absoluto. Bob jantou e saiu de casa para pensar um pouco. Sua mãe foi atrás, para consolar seu filho querido.

– Robertson, outras oportunidades viram. Assim como Zico falou, e você me disse isso, cuida da sua vida, que Deus cuida dos detalhes.

– Pode me chamar de Bob, mãe. – respondeu Bob. Mas, poxa, não é justo, mãe. Eu fui a pessoa que mais treinou: jogava com o pessoal da rua dois de manhã, com o pessoal da rua quatro na hora do almoço e com o pessoal da rua seis no final da tarde. Já que cada um tem sua hora de jogar. Eu estava me preparando para esse dia… somente para esse dia. Ano que vem estarei velho e….

– Peraê, senhor Robertson, então você vem matando aula para jogar futebol com seus amigos, onde está sua responsabilidade, menino. – Interrompeu sua mãe.

– Mãe, hoje não, por favor … – finalizou Bob.

Ambos entraram e se prepararam para dormir. Dessa vez o sono veio rápido e Bob adormeceu. Por acaso, o despertador tocou esse dia no horário programado no dia anterior. Bob se levantou, preparou o café-da-manha, para ele, seus irmãos e mãe. Comeu sem pressa, conversou com os irmãos sobre nada, se trocou, pegou seu equipamento e saiu, exatamente como havia planejado no dia anterior. Se dirigiu ao local da peneira.

Chegando lá, cumprimentou o técnico, que era seu amigo, as pessoas que participavam de todo o processo, que também eram seus conhecidos. Desejou sorte e avisou que estava na torcida por todos.

Os jogos transcorreram como esperado, muita emoção, devoção, entrega e jogo-duro. Bob torceu para todos como se fossem jogadores do Flamengo.

Chegou o jogo mais esperado, a final. Dezesseis meninos lutando por um futuro melhor. O juiz apita, início da partida. Partida lá e cá, foi quando que em uma dividida em jogo de ataque, office-boy, um menino pequeno, leve e muito rápido, leva a pior, se machuca e precisa sair da partida. Sem ter o que fazer e precisando continuar com o jogo, o técnico se vira para Bob e pergunta: está preparado?

– Nasci preparado, amigo! – responde Bob.

Rapidamente se troca, não se aquece e entra em campo. Na primeira vez que pega na bola, no ataque adversário, Bob dribla um, dribla dois e chuta. Bem onde a coruja dorme. Bob recebe sua segunda bola, dessa vez um belo cruzamento do amigo Djey. Cabeça nela. Dois a zero para o time de Bob.

A essa altura, o time adversário já havia entendido que o menino que entrara era a grande estrela. Todos para cima dele, sentenciou o capitão adversário. Bob não teve mais paz durante a partida, mas ao receber as bolas, buscava seus amigos, em melhores condições. Passes por debaixo da perna, de longa distância, da lateral, da linha de fundo.

Bob vivia seu sonho, ao qual lutou por todo esse tempo. Mais que uma vitória ali em campo, aquilo significava uma possível vitória em sua vida.

Final da partida, quatro a zero para o time de Bob e ele foi considerado o melhor jogador daquela final. Muita comemoração, do time, do técnico e de todos que estavam ali. Afinal, o objetivo era ser visto por quem estava nas arquibancadas.

Dali, Bob avistou sua mãe, que para sua vergonha, fazia um sinal de coração com as mãos e repetida, apenas fazendo o movimento com a boa: “Eu já sabia!”. O técnico havia pedido a um companheiro ir à casa de Bob alertar sua mãe e irmãos que ele iria jogar, graças a uma mão de Deus.

A TV local estava ali e chamou o Bob para uma entrevista ao final das comemorações:

– Qual o seu nome?

– Bob, respondeu ele.

– Você imaginaria que essa coincidência aconteceria com você hoje? Imagina que sorte. Como foi a partida para você?

– Me sinto triste pelo office-boy, mas acho que ele mostrou sua categoria nos outros jogos que participou. Por outro lado, estou muito feliz pelo jogo, o time deu tudo de si, fomos para cima e chegamos no resultado, graças a Deus. Sorte, coincidência? Não sei, o que posso dizer é que quanto mais eu treino, quanto mais eu me dedico, mais sorte eu tenho!!!

– E o futuro? – O futuro a Deus pertence, agora me dá licença que preciso comemorar com meus amigos e família!!! Ah, antes que eu me esqueça, Flamengo, eu tô aqui!!!

5 comentários em “Seguindo os passos do Rei na Nação”

    1. Oí Sogra, toda sexta-feira publicamos novos textos. Se inscreva na newsletter que você receberá notificações sempre de um novo texto. Beijos

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